Maria Madalena, com frequência associada sem qualquer comprovação à mulher acusada de adultério (Jo 8,3-11) e à pecadora que lhe perfumou os pés (Lc 7,36-38), foi a primeira testemunha ocular da Ressurreição de Jesus mencionada na Bíblia; há base teológica para crer que Ele tenha Se mostrado primeiro à Virgem Maria, mas isto não está registrado em nenhum texto. Excetuando-se Nossa Senhora, então, por que este privilégio a Maria Madalena, e não, por exemplo, a São Pedro? De fato, foi ela quem avisou aos Apóstolos que Cristo ressuscitara, e por isso foi chamada por São Tomás de Aquino de Apóstola dos Apóstolos.
O que ela fez de tão particular para ser a primeira a ver a glória celeste de Jesus?
Ora, depois de ter sido curada por Ele, tudo o que é mencionado de Maria Madalena é exemplar. Antes desta cura, era atormentada por sete demônios, agindo de acordo com a vontade deles. A palavra inspirada dos Evangelhos faz questão de indicar que eram sete. Este número, na Bíblia, é usado como sinal de “perfeição, plenitude”, em geral no bom sentido. Mas aqui pode ser entendido como uma referência de posse total ao demônio, isto é, a nossa condição antes do Batismo. Só depois de batizados é que podemos, como ela, seguir Jesus e servi-Lo com os nossos bens, ou seja, as nossas riquezas individuais, os dons, que Deus nos dá. Maria Madalena representa a todos nós, todos os batizados, a quem Deus quer igualmente Se manifestar. Não a alguém privilegiadamente (Nossa Senhora, evidentemente, tem outra condição e não se enquadra neste contexto), mas a toda a Humanidade, que é chamada por Ele à vida celeste – e por isso a necessidade absoluta do nosso apostolado, que ela igualmente exemplificou e sem o qual não seremos salvos.
Depois de ter sido buscada por Deus, pois é Ele sempre que nos procura primeiro como ensina a Doutrina, Maria Madalena passou então a unicamente seguir a Cristo – é só o que se registra da sua vida – e O acompanhou até a Sua morte, estando aos pés da Cruz. Continuou atenta a aonde Ele foi, para vê-Lo, isto é, estar com Ele, com a intenção de continuar a servi-Lo com os aromas. Que no futuro se possa também registrar de nós que nesta vida unicamente seguimos a Cristo, buscando-O atentamente mesmo quando ocultado, não morto!, para lhe oferecer no Seu Corpo Místico o perfume das nossas obras! Santa Maria Madalena de fato nos representa, como exemplo do que devemos ser.
E de como devemos agir: buscar Jesus, para vê-Lo e servi-Lo. Mas não apenas individualmente, pois no exemplo bíblico de Maria Madalena ela está acompanhada em diferentes passagens, especialmente por Nossa Senhora. Como Igreja, e indispensavelmente com a Virgem Maria, é que servimos Jesus.
Este serviço inclui, como já mencionado, anunciá-Lo. Mesmo que não acreditem. Mesmo que debochem. Santa Maria Madalena é padroeira das pessoas ridicularizadas pela sua piedade, um patronato até certo ponto surpreendente, porque, sendo a primeira evangelizadora da vitória de Cristo sobre a morte, recebeu como imediata reação dos apóstolos a incredulidade, e por um motivo que sugere alguma ironia: “Mas eles achavam que essas palavras eram delírio e não acreditaram” (Lc 24,11-12). Muitos católicos fervorosos conhecem bem a pressão de ambientes que desfazem de tudo referente à Igreja, através de zombaria mais ou menos educada e/ou agressiva. Mas ela anunciou e manteve o anúncio; e Pedro e João, apesar da reação inicial, logo correram ao sepulcro. Só Deus sabe as consequências da evangelização nas almas, e nunca podemos deixar de fazê-lo por respeitos humanos ou desânimo.
A evangelização tem que ser fiel à Verdade – naturalmente. No encontro de Jesus com Maria Madalena, fora do sepulcro, Ele lhe disse: “Noli Me tangere”, “não Me retenhas” (cf. Jo 20,17), porque devia subir ao Pai. Anunciamos o Cristo vivo, fora do sepulcro, que leva nossa humanidade redimida para o Céu: não podemos deturpar esta mensagem, apresentando quaisquer outras interpretações particulares que queiramos forjar sectariamente e egoisticamente, hereticamente. Não é o ser humano que “segura” Deus nas suas mãos, para literalmente manuseá-Lo como quiser, mas é Deus que tem o universo nas mãos, incluindo o cosmo imensurável de cada alma.
Enfim, Maria Madalena é a figura e o exemplo dos batizados, o que pode ser resumido em: buscar e servir a Cristo, com Nossa Senhora. Por isso é a ela que Jesus glorificado aparece em primeiro lugar, e que seu nome está entre os primeiros na Ladainha de Todos os Santos.