Mais de US$ 100 bi em armas nucleares: Um alerta contra a cultura da morte

Gastos militares no setor nuclear crescem 11% e ligam alerta para a escalada global da ameaçada de uma guerra total.
Misseis nucleares sendo disparados

Atualmente existem mais 12.000 ogivas nucleares espalhadas em nove países. Crescente dos gastos militares liga alerta global pela paz

O relatório anual da ICAN (Campanha Internacional para Abolição das Armas Nucleares), divulgado neste mês de junho, apontou que os gastos militares com armas nucleares em 2024 ultrapassaram os US$ 100 Bilhões.

Essa cifra exorbitante engloba os gastos dos nove países que atualmente possuem armas atômicas — Estados Unidos, Israel, França, Rússia, Reino Unido, Índia, Paquistão, China e Coreia do Norte.

Atualmente, existem cerca de 12.000 ogivas nucleares, das quais quase 90% pertencem aos Estados Unidos e à Rússia.

O montante gasto teve um aumento de cerca de 11% em relação ao ano anterior. Isso equivale a 3.169 dólares por segundo, 274 milhões de dólares por dia e 1,9 bilhão de dólares por semana no ano passado.

Os números chamam a atenção também por evidenciarem um crescente rearmamento mundial, inclusive nuclear.

Dinheiro desperdiçado que poderia estar em outras áreas

O relatório da ICAN denuncia que o dinheiro gasto em arsenais nucleares é “desperdiçado”, já que os próprios Estados dotados de armas nucleares concordaram formalmente — em uma declaração conjunta no início de 2022 —, que “uma guerra nuclear não pode ser vencida e nunca deve ser travada”.

Os dados apontam e fazem um paralelo mostrando que todo esse dinheiro seria suficiente para alimentar as 345 milhões de pessoas que hoje sofrem com a fome e escassez de alimentos, por dois anos.

Os US$ 100 bilhões poderiam também ter sido usados para financiar medidas destinadas a enfrentar as ameaças à segurança representadas pelas mudanças climáticas, por exemplo, ou para fornecer fundos para melhorar serviços públicos essenciais, como saúde, moradia e educação.

Porém, apesar dos muitos apelos internacionais, vindos de diversos setores da sociedade, é improvável que haja uma inversão no crescimento e desenvolvimento contínuo de armas nucleares.

A paz é um compromisso cristão

Em meio ao cenário de medo e tensão, é sempre importante lembrar que os ensinamentos da Igreja nos mostram que a paz é um bem supremo. Ela deve ser construída baseada na solidariedade, no amor e na coragem.

A paz não é a utópica e total ausência de conflitos. Ela precisa ser construída e mantida com valores traduzidos em justiça, reconciliação e respeito pela dignidade humana.

É por meio da palavra de Jesus Cristo e dos ensinamentos da Igreja que nos tornamos “instrumentos de paz”, citando a oração de São Francisco de Assis.

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Enquanto agentes da paz, os cristãos não devem se conformar com a propagação do medo ou a indiferença para com seus semelhantes. Pelo contrário, é preciso agir de forma confiante na ação de Deus.

Em Mateus 5,9, Jesus diz: “Felizes os que promovem a paz, porque Deus os terá como filhos.”. Este é um chamado à paz, a sermos agentes diretos de mudança, e tudo começa pelo ambiente em que vivemos e atuamos em nossa rotina.

Leão XIV reafirma compromisso da Igreja pela busca da paz

Desde que assumiu como Papa, Leão XIV já se pronunciou diversas vezes contra a escalada bélica em todo o mundo. O Pontífice destacou em discurso no último mês de maio que:

“A Santa Sé está sempre pronta para ajudar a reunir os inimigos, cara a cara, para que conversem entre si, para que os povos em todos os lugares possam mais uma vez encontrar esperança e recuperar a dignidade que merecem, a dignidade da paz”, disse Leão XIV.

Papa Leão XIV (Reprodução/ Vatican News)

“A guerra nunca é inevitável. As armas podem e devem ser silenciadas, pois não resolvem os problemas, apenas os agravam. Aqueles que fazem a história são os pacificadores, não aqueles que semeiam o sofrimento”, acrescentou.

Já sobre a escalada do conflito entre Israel e Irã, no último sábado (14), Leão XIV lamentou as animosidades entre as duas nações, e clamou que “ninguém ameace a existência do outro, apoiar a paz”.

“A situação no Irã e em Israel se deteriorou gravemente”, disse o Papa ao final das saudações em várias línguas após a catequese, numa Basílica de São Pedro lotada com cerca de 6 mil fiéis.

Em tom angustiado, Leão pronunciou duas palavras fortes em seu apelo: “responsabilidade”, para com o próprio povo e o mundo, e “razão”, para não ceder à fúria cega.

Acompanhando as posições expressas várias vezes pela Santa Sé, o Papa Leão XIV chamou ao compromisso de “construir um mundo mais seguro e livre da ameaça nuclear”.

Este “deve ser buscado por meio de um encontro respeitoso e de um diálogo sincero para construir uma paz duradoura, fundada na justiça, na fraternidade e no bem comum”, completou.

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Papa Francisco deixou legado importante sobre o tema

O antecessor de Leão XIV fez diversas declarações clamando pela paz, pela ponderação e busca da resolução dos conflitos bélicos.

Em dezembro de 2024, Francisco fez um forte apelo por paz, e ao recordar a situação na Síria, Gaza, Israel e Ucrânia, reforçou a importância do caminho virtuoso do diálogo e da reconciliação.

“A guerra é um horror, a guerra ofende Deus e a humanidade, a guerra não poupa ninguém, a guerra é sempre uma derrota, uma derrota para toda a humanidade”, disse Francisco.

“A busca pela paz é uma responsabilidade não de poucos, mas de todos. Se a indiferença e a resignação aos horrores da guerra prevalecerem, toda a família humana sairá derrotada. Caros irmãos e irmãs, não nos cansemos de rezar por essas populações tão duramente provadas e de implorar a Deus o dom da paz.”, completou o Papa.

Papa Francisco (Reprodução/Vatican Media)

Até o final de sua vida, o Papa Francisco não deixou de levantar a bandeira da causa da paz. Em seu último discurso, ele pediu o fim das guerras em Gaza e na Ucrânia.

Durante as celebrações de Páscoa de 2025, ele destacou em sua fala:

“Que grande sede de morte, de matar, testemunhamos a cada dia nos muitos conflitos que assolam diferentes partes do nosso mundo! Quanto desprezo é despertado, às vezes, em relação aos vulneráveis, aos marginalizados e aos migrantes!”.

Oração do Papa Francisco pela paz

Senhor Deus de Paz, escutai a nossa súplica!

Tentamos tantas vezes e durante tantos anos resolver os nossos conflitos

com as nossas forças e também com as nossas armas;

tantos momentos de hostilidade e escuridão, tanto sangue derramado,

tantas vidas despedaçadas, tantas esperanças sepultadas…

Mas os nossos esforços foram em vão.

Agora, Senhor, ajudai-nos Vós!

Dai-nos Vós a paz, ensinai-nos Vós a paz, guiai-nos Vós para a paz.

Abri os nossos olhos e os nossos corações

e dai-nos a coragem de dizer: “Nunca mais a guerra”.

Com a guerra, tudo fica destruído!

Infundi em nós a coragem de realizar

gestos concretos para construir a paz.

Senhor, Deus de Abraão e dos Profetas, Deus Amor,

que nos criastes e chamais a viver como irmãos,

dai-nos a força para sermos cada dia artesãos da paz.

Dai-nos a capacidade de olhar com benevolência

a todos os irmãos que encontramos no nosso caminho.

Tornai-nos disponíveis para ouvir o grito dos nossos cidadãos

que nos pedem para transformar as nossas armas em instrumentos de paz,

os nossos medos em confiança e as nossas tensões em perdão.

Mantende acesa em nós a chama da esperança

para efetuar, com paciente perseverança,

opções de diálogo e reconciliação, para que vença finalmente a paz.

E que do coração de todo o homem sejam banidas estas palavras:

divisão, ódio, guerra!

Senhor, desarmai a língua e as mãos,

renovai os corações e as mentes,

para que a palavra que nos faz encontrar

seja sempre “irmão”,

e o estilo da nossa vida se torne: Shalom, Paz, Salam!

Amém.

Papa Francisco, Jardins do Vaticano, 08 de junho de 2014

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