Empatia, consciência política e ambiental são instrumentos de combate aos impactos climáticos
Chovia intensamente, naquele 18 de fevereiro, na Freguesia do Ó, capital paulista. Chovia tanto que a larga e extensa Avenida General Edgar Faccó se tornou rio caudaloso, levando entulho, carros, negócios e vidas. A motorista de aplicativo Janaína de Souza Maia, 47 anos, foi encontrada morta dentro de seu carro, que ficou submerso no alagamento.
Segundo a Defesa Civil do Estado de São Paulo, desde o início das chuvas deste verão, 21 pessoas morreram no estado em razão dos temporais. Eventos climáticos extremos, como furacões, inundações e secas, têm se tornado mais frequentes e intensos do que em qualquer outro momento registrado da história, e isso, segundo a Organização das Nações Unidas, é resultado das emissões de gases de efeito estufa que recobrem a Terra, retém o calor do sol e levam ao aquecimento global e às mudanças climáticas.
Segundo informações da Rádio Agência, em 18 de novembro de 2023, 151 idosos morreram por causa do calor no Rio de Janeiro, quando os termômetros registraram mais de 44 °C por oito horas, mostrando como o tempo de exposição ao calor tem correlação com a mortalidade. Os dados são do Centro de Inteligência Epidemiológica do município, cujo trabalho analisou todos os registros de mortes naturais ocorridas entre 2012 e 2024.
E o que isso tem a ver com a Igreja Católica ou com aqueles que a compõem? Tudo, à medida que tais impactos causam destruições de biomas, ecossistemas, estruturas, culturas, moradias, famílias e histórias. Não por acaso, neste tempo da quaresma, a Campanha da Fraternidade (CF) convida à reflexão sobre Fraternidade e Ecologia Integral, Deus viu que tudo era bom (Gn 1,31), com o objetivo de “ promover em espírito quaresmal e em tempos de urgente crise socioambiental, um processo de conversão integral, ouvindo o grito dos pobres e da Terra”, assim registra o texto-base da campanha.
“[A CF] tem sido um chamado à conversão. Nos chama a mudar de vida, mudar de mentalidade, é por isso que se escolhe a quaresma, porque é típico da quaresma nos levar a uma conversão. E a Igreja do Brasil, desde 1964 vem nos ajudando a pensar essa conversão a partir de alguma realidade social, e sempre propondo o texto base, a catequese daquela temática, com propostas de ação”, disse dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, bispo da Prelazia do Marajó e presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Para o bispo do Marajó, a quaresma é período propício para intensificar o empenho no seguimento de Jesus, na relação fraterna com as pessoas e com o mundo à nossa volta. Quaresma e ecologia são termos, por vezes, banalizados em suas essências e práticas, mas ao consultar o texto-base da campanha é possível aprender sobre ambos.
O item 14 do texto-base, vai destacar que “ Temos o dom e a tarefa de estarmos aqui e agora, com toda a beleza e bondade que o Senhor Deus criou, frente aos desafios do nosso tempo. Como o primeiro homem e a primeira mulher, o Senhor olha para cada um de nós e nos confia a obra da Criação para a cultivarmos e guardarmos. De mãos dadas com todas as criaturas, as nossas comunidades e os pobres e sofredores da Terra, queremos fazer desse “tempo favorável” (2Cor 6,2) a ocasião em que o compromisso cristão se torne cada dia mais efetivo, resplandecendo o rosto de Deus sobre nós (Sl 67,1)”, deste modo destaca o documento da CF.
Já sobre Ecologia (item 15), o texto traz que “ como economia e ecumenismo, derivam de oikos (grego), que quer dizer casa. O desafio para a nossa conversão nesta quaresma é cuidar da casa: da casa interior de cada um de nós (espiritualidade), da casa onde habitamos (família), da casa onde passamos grande parte do nosso tempo (trabalho), da casa onde nos relacionamos (cidade), etc. e da nossa Casa Comum (o planeta Terra), pois nela, tudo está interligado. Tudo isso, sem nos esquecer de que ‘não temos aqui morada permanente, mas estamos à procura da que está por vir’” (Hb 13,14).
O termo “ mais pobres” ou “ pobres” é citado 13 vezes, ressaltando a preocupação e a prática de que o cuidado com a Casa Comum e com os mais vulneráveis precisa ser vivido de fato. Além do compromisso cristão com os irmãos mais vulneráveis, o texto-base da CF vai lembrar, assim como diversas e atuais pesquisas, que estes são os mais atingidos pelas mudanças climáticas.
“De fato, a conta das graves mudanças climáticas, das guerras, das destruições ecológicas, chega primeiro para os mais pobres. São milhões de refugiados climáticos no mundo, enquanto 1% da população global concentra um absurdo de riquezas. Esse é um pecado estrutural. A injustiça ambiental. E os discursos dos poderosos continuam insistindo em acelerar o extrativismo. É um grande equívoco. As fontes vitais do planeta não são infinitas. Se elas não forem cuidadas, se esgotarão. E nós não temos planeta B. A Campanha da Fraternidade sobre Ecologia Integral está aí para nos ajudar a pensar sobre tudo isso”, denuncia dom Vicente Ferreira, bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA) e referencial da Comissão de Ecologia Integral e Mineração. Comissão que pautou o tema da CF deste ano.
Aliás, “ denunciar os males que o modo de vida atual impõe ao planeta e que tem gerado uma ‘ complexa crise socioambiental” (LS 135), dado que em nossa Casa Comum “ tudo está interligado” (LS 16)”, está entre os objetivos específicos da campanha.
Dom Vicente acompanha de perto as dores das comunidades atingidas por violações socioambientais e sobre elas escreveu o livro Brumadinho: 25 é Todo dia, publicado pela Expressão Popular, uma obra que conta a tragédia, o crime ambiental da Vale, em 25 de janeiro de 2018, quando a barragem de Mina de Córrego do Feijão rompeu destroçando e soterrando com lama 270 pessoas, deixando três desaparecidos e impactos ambientais devastadores.
O Relatório sobre Clima e Desenvolvimento para o País (CCDR) referente ao Brasil, desenvolvido pelo Banco Mundial, revelou que até o final deste século, a temperatura média do Brasil deve aumentar 1,7 °C, para 5,3 °C, em relação à média de 1986–2005. Você já deve ter notado o aumento da temperatura.
O documento também denuncia que todos os eventos climáticos severos devem se intensificar, provocando grande impacto nas cidades e áreas vulneráveis. “O setor agrícola será consideravelmente impactado pelas mudanças climáticas. E estes impactos estarão concentrados nas regiões mais pobres do país, como o Nordeste, onde a população tem piores condições de renda, educação e moradia”, aponta o relatório, destacando que os impactos climáticos podem levar entre 800 mil e 3 milhões de brasileiros à pobreza extrema até 2030.
Outra pesquisa, esta realizada pelo Greenpeace, revelou que 62% dos brasileiros acreditam que as pessoas mais pobres são as mais afetadas por eventos climáticos extremos. Além disso, 67% dos entrevistados confiam pouco ou nada no poder público para prevenir ou mitigar os impactos desses desastres. A Campanha, deste modo, convida, ao acolhimento e a caridade como materialização da própria conversão, mas vai além, que inspirados pelo Papa Francisco, cada cidadão possa alterar o comportamento de apatia política e se articular, diante da realidade de que o “ grito dos pobres e o grito da Terra” estão intimamente interligados.
“O empenho pelos bens comuns, por justiça recriadora e pela defesa da vida de toda a Criação, passa a ser ‘lugar teológico’, no qual Deus nos convoca e nos oferece sua graça. O Papa Francisco apresenta na Exortação Apostólica Laudate Deum, o conceito de “multilateralismo a partir de baixo” (LD, 38), pelo qual convida os povos que lutam por justiça socioambiental a tomarem decisões essenciais de cuidado da Casa Comum. Estas decisões, deixadas apenas aos governantes, já se revelaram insuficientes. A atuação social e política dos cristãos se torna essencial. Demonstra o amor em seu grau mais profundo, o amor a toda a obra de Deus, neste tempo no qual a ‘ história dá sinais de regressão”” (FT, 174), destaca o texto-base.