Ser leigo é assumir a missão de viver a fé no cotidiano. Bispo referencial do Laicato ressalta a força da vocação na Igreja e na sociedade
Ao refletir sobre o leigo na Igreja, qual é seu papel no mundo atual? Em um tempo de mudanças rápidas, tensões sociais e desafios para a fé, a presença de homens e mulheres atuantes, formados e conscientes de sua vocação se torna decisiva.
O Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas, celebrado em 23 de novembro, com o tema deste ano jubilar “Cristãos leigos e leigas: sinais de esperança no mundo” reforça o chamado para uma missão que nasce do Batismo e se concretiza na vida em comunidade e na sociedade como um todo.
Para refletir sobre essa vocação, Dom Giovane Pereira de Melo, Bispo de Araguaína (TO) e presidente da Comissão Episcopal para o Laicato da CNBB, em entrevista ao A12, afirma que o leigo maduro vive sua fé no cotidiano e transforma o ambiente onde está.
“O cristão leigo é chamado a santificar as realidades temporais, assumindo a missão de evangelizar o trabalho, a política, a cultura, a economia, a comunicação e a família”.
Para o Bispo, o testemunho é essencial: “O primeiro ato de evangelização é o testemunho de vida”. A família também é central. “A família é o primeiro e mais decisivo campo de missão do leigo” e a comunidade eclesial nutre essa vocação com participação, formação e envio missionário.
Leigos como artesãos de paz
Em tempos polarizados, o papel do leigo ganha peso, sobretudo nas redes sociais e na política. Dom Giovane lembra um convite do Papa Francisco: ser “artesão de paz”. Ele reforça que construir pontes é parte da missão cristã: “É preciso cultivar a cultura do encontro”.
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Essa atitude nasce da conversão interior. “A polarização nasce do ‘coração armado’”, recorda citando a Fratelli Tutti. O diálogo, a escuta e a misericórdia mostram ao mundo o estilo de Jesus: proximidade, compaixão e ternura.
Criar espaço para quem deseja participar
Muitas pessoas sentem que não têm lugar na paróquia. Para Dom Giovane, a solução está em uma Igreja aberta: “Precisamos pensar nossas comunidades como uma ‘Igreja de portas abertas’”.
A escuta real cria pertencimento. O Bispo explica que cada batizado tem um dom único. Por isso, incentivar ministérios, oferecer formação e dar responsabilidades fortalece a missão dos leigos.
“Não reduzir os cristãos leigos a ‘colaboradores’ do clero, mas corresponsáveis na missão”.
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Os desafios do leigo hoje
O Bispo destaca desafios que afetam diretamente quem busca viver a fé com autenticidade:
- O processo de secularização em curso: gera dificuldade em viver a fé de modo público e coerente num ambiente que cada vez mais ignora ou relativiza a dimensão religiosa.
- A polarização social e eclesial: conflitos ideológicos que dividem comunidades, famílias e enfraquecem o testemunho cristão.
- O clericalismo e a falta de espaço real: pouca valorização e participação efetiva dos cristãos leigos na vida e nas decisões da Igreja.
- As desigualdades sociais: pobreza, violência e injustiças que exigem compromisso concreto com a caridade e a transformação social.
- O cansaço e a falta de espiritualidade: ritmo de vida estressante que dificulta a oração, formação e participação comunitária.
- O ambiente digital hostil: com as fake news, agressividade e falta de ética nas redes, que desafiam o discernimento e o testemunho.
Esses obstáculos exigem coragem, discernimento e uma espiritualidade sólida.
Um conselho para todo cristão leigo
Dom Giovane resume a caminhada com uma orientação simples e profunda:
“Cultive uma vida unida a Cristo diariamente. Não há missão sem encontro pessoal com o Senhor.”
E conclui que permanecer em Cristo, servir com amor e testemunhar o Evangelho no dia a dia revela ao mundo a beleza da vocação laical.