Igreja Espanhola: uma Igreja reformada e combativa

Série 'História da Igreja na América Latina' por padre Inácio Medeiros, CSSR.
Imagem reconquista espanhola do artigo Igreja Espanhola: uma Igreja reformada e combativa

HISTÓRIA DA IGREJA
NA AMÉRICA LATINA  

Espanha na Época da Colonização

Os europeus começaram a chegar ao continente latino-americano em fins do século XV e início do século XVI. Naquele tempo o movimento protestante ainda avançava pela Europa, ganhando terreno em regiões até então colocadas sobre a tutela da Igreja. Mas, Espanha e Portugal foram dois países que pouco sofreram com o avanço protestante, pois seus reis permaneceram fiéis ao papa e contavam com ele para legitimar o seu processo expansionista.

Como estava organizada a sociedade espanhola na época do descobrimento:

População:

Era formada por aproximadamente 8 milhões de pessoas, contando entre elas cerca de 500 mil judeus e 1 milhão de muçulmanos e descendentes. Esta população concentrava-se mais na zona rural, com índice de até 80%, variando de região para região.

Distribuição nas diversas classes sociais:

Assim estavam organizadas as principais classes sociais na Espanha que mantinha ainda muitos traços da civilização medieval:

– 3% classe média;
– 75 mil eclesiásticos (1% da população) sendo 2 mil do alto Clero;
– 120-140 mil religiosos;
– 2% de aristocratas;

Sociedade espanhola

Era extremamente desigual e nela apenas 2% da população concentravam em suas mãos aproximadamente 97% das terras e das riquezas. A Igreja tinha uma situação bastante privilegiada, contando com uma renda anual de 6 milhões de ducados (1 ducado correspondia a 20 dias de trabalho de um peão ou 8 dias de um trabalhador especializado).

Estruturação social:

Distribuição das classes sociais na Espanha do século XVI: 

– Aristocracia (50 famílias);
– Clero;
– Classe Média;
– Camponeses;

Foto de: reprodução.

Espanha Medieval

No início da idade moderna a Espanha ainda conservava fortes traços da Civilização Medieval. 

Porque a Espanha colonizou o “Novo Mundo”?

Esta é uma pergunta que muitos historiadores fizeram, mas a questão continua sendo motivo de polêmica. Entretanto, podemos afirmar que o catolicismo espanhol era diferente do restante da Europa. Era de uma “fogosidade” maior, pois a Península enfrentou quase 8 séculos de luta contra os “infiéis”. O catolicismo espanhol era marcado pelo martírio e pelo Espírito de Cruzada.

A tão necessária reforma eclesiástica aconteceu na Espanha com quase um século de antecedência do que no resto do continente. Ainda que a presença da Espanha na América tenha coincidido com a crise europeia trazida pela Reforma Protestante, isto pouco abalou a Península Ibérica como um todo. Além disso, os teólogos do século XVI não abandonaram o ideal de “Orbis Christianus”, ou seja, a constituição de um mundo genuinamente cristão-católico com a união do poderes da Igreja com o estado espanhol. Em vez de simplesmente coagir os infiéis a abraçarem a fé, motivava-se os batizados a conservá-la.

A perseguição aos judeus, da qual ainda hoje muito se fala, era obra do “Braço Secular”, devido aos interesses econômicos. O cristão e, sobretudo, o missionário ou colonizador que passasse à América devia possuir o “estatuto de limpeza ou pureza de sangue” e não podia, em hipótese alguma, ter descendência ou ligação com qualquer raça de infiéis.

Como já foi dito acima, permanecia ainda o ideal de cruzada, sendo que a conquista de Granada em 1492, último reduto muçulmano na Espanha, coincidiu com o descobrimento da América e fez aumentar este mesmo espírito.

Foto de: reprodução.

Reconquista Espanhola

A luta contra os infiéis preparou
a Espanha para as grandes viagens
e conquistas ultramarinas.

A Igreja Espanhola

Era uma Igreja reformada. Seus bispos deviam ser espanhóis de sangue e residir em suas dioceses. Na vida interna da Igreja notava-se uma grande influência dos reis católicos. Grandes figuras do episcopado como Hermando de Talavera, Diego de Deza e Francisco Jiménez de Cisneros davam o tom da conduta e a linha de caminhada da Igreja, mas também, como era muito comum nesta época, havia um grande espírito nacionalista, e por ele a Igreja era mais afinada com os reis do que com o próprio papa, considerado muito distante da realidade e da cultuara espanhola.

Como a Reforma Eclesiástica agiu na Espanha?

Os reis Carlos I (1516-1552) e Felipe II (1552-1598) procuraram pôr em prática os decretos conciliares oriundos de Trento, levando a cabo a reforma já iniciada há tempos pelos reis católicos. Entre as medidas tomadas para implementar a Reforma Eclesiástica podemos destacar a realização de Concílios Provinciais e Sínodos Diocesanos na Espanha e nas colônias, como o de Lima em 1582 e do México em 1585.

A ação de alguns grandes bispos e prelados, a renovação das congregações e ordens religiosas, com a criação de novos institutos também muito contribuiu para manter o espírito da Igreja espanhola.

No campo das ciências e das artes acontecia o florescimento da teologia e da literatura cristã e, paralelo a isso, havia a ação da inquisição contra os infiéis e hereges.

A Espanha, sobretudo, com Felipe II, tornou-se o principal campo de luta contra o avanço do protestantismo, pois defendendo a fé católica defendia os seus próprios interesses:

– Combateu os focos protestantes nas cidades de Sevilha e Valadolid;
– Combateu e derrotou os últimos focos de muçulmanos na Espanha, participando da vitória contra os turcos em Lepanto (1571);
– Participou das Guerras de Religião na França (1562-1596), nos Países Baixos (1572-1600) e na Inglaterra (1588), onde se deu a derrota da “invencível armada” como grande revés deste período.

A ação de Felipe II foi continuada por Felipe III (1598-1621) e por Felipe IV (1621-1665) durante a Guerra dos 30 anos até que se chegasse à Paz de Westfalia (1648).

Foto de: reprodução.

Rei Felipe II

O rei espanhol Felipe II foi o grande promotor
da reforma eclesiástica em seu território.

Estrutura política da Espanha após a reconquista e unificação

Existia a junção de vários reinos. O reino de Aragão compreendia diversos territórios (Aragão, Catalunha, Valência, Sicília, Sardenha e Nápoles) que eram autônomos na administração, na justiça e economia. O reino de Castela, por sua vez, era um bloco unido, constituído por 18 províncias e alguns territórios autônomos que eram propriedade das ordens de cavaleiros. Havia ainda a Província Basca.

Com o casamento de Fernando e Isabel, os famosos reis católicos, a Espanha uniu todos os seus reinos e aprontou-se para a grande expansão ultramarina, dotando-se, porém, de alguns órgãos de Governo Central para controlar o seu expansionismo:

– Conselho Supremo (de Aragão, Castela e Inquisição);
– Conselho de Estado – Consultivo;
– Conselho de Guerra – Só em tempo de guerra;
– Supremo Conselho das Índias – Para tudo o que se referia as colônias.

Padre Inácio Medeiros, C.Ss.R. 
Mestre em História da Igreja
pela Universidade Gregoriana

Escreve série sobre a 
História da Igreja no Brasil 
para o A12.com

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