O bezerro de ouro

É só ao reconhecer o rosto do Deus verdadeiro, por meio da concretude de sua ação libertadora em nossa história, que os ídolos são destruídos.
Imagem Jornada Biblica O bezerro de ouro do artigo O bezerro de ouro

Enquanto a fé nos põe a caminho, voltados para a voz de Deus, a idolatria nos enclausura na escuta do eco da nossa própria voz

Por Felipe Koller

A fé é fundamentalmente uma atitude de escuta. É a disponibilidade de quem, em resposta ao chamado do Deus da vida, se desinstala de suas pretensas seguranças e lança sua confiança na voz de um Outro. Assim, toda a existência se torna um diálogo, uma relação. Como toda relação, a fé exige pôr a própria perspectiva entre parênteses, requer sair do fechamento em si mesmo para levar em conta o outro, e demanda paciência a arte de deixar o tempo decantar os movimentos do nosso coração.

Tudo isso ainda faltava para o povo de Israel enquanto Moisés permanecia no Sinai em diálogo com Deus. Cansados da sua demora (cf. Êx 32), dessa demora que a atitude de escuta exige, os israelitas optaram por fechar os ouvidos. É quando aparece o contrário da fé: a idolatria. Arrancando seus brincos e joias, fundiram com o metal a imagem de um bezerro. E o adoraram como o deus que os havia libertado.

Às vezes, achamos que a idolatria é um pecado típico de um passado distante, quando a fé do povo de Deus era confrontada com as religiões pagãs. É um tremendo engano, porque a idolatria é uma tentação sempre presente. O ídolo é um deus que não exige espera, porque não é um Outro, não é o rosto de um Deus que nos fala: é simplesmente uma projeção de nossos caprichos, de nossos medos, de nossos rancores. É um deus manipulável, que nós próprios construímos. É um deus que serve de pretexto para a adoração de nós mesmos.

Por isso, o primeiro dos mandamentos reza: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20,3). Mas para sermos capazes de renunciar à idolatria é preciso ouvir o versículo anterior: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Êx 20,2). É só ao reconhecer o rosto do Deus verdadeiro, por meio da concretude de sua ação libertadora em nossa história, que os ídolos são destruídos.

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