A Noiva de Caná

A contemplação da noiva de Caná nos permite mergulhar nesse mistério maior, que é nossa relação pessoal e eclesial com o Noivo, com aquele que vai chegar, como está escrito na parábola das dez virgens.
Nossa Senhora de Caná
Thiago Leon
Nicho de Nossa Senhora Aparecida (Thiago Leon)


No Santuário de Aparecida, mais precisamente no nicho onde está a imagem de Nossa Senhora Aparecida, temos referência a um dos versículos bíblicos do Apocalipse: “O Espírito e a Esposa dizem: Vem! Que o sedento venha, e quem o deseja, receba gratuitamente água da vida” (Ap 22,17). Vale a pena contemplarmos o conjunto da obra, que muito tem a nos ensinar.

No evangelho das Bodas, é comum nos perguntarmos quem seria a noiva de Caná. A noiva é a Igreja. Por mais estranho que possa parecer, a narrativa do evangelista João não tem apenas a intenção de nos contar o primeiro sinal realizado por Jesus, mas de nos revelar um mistério muito maior. O mesmo mistério que, de outra forma, explica Paulo na Carta aos Efésios:

“E vós maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de purificá-la com o banho da água e santificá-la pela Palavra, para apresentar a si mesmo a Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas santa e irrepreensível (…). É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e sua Igreja” (Ef 5,25-27.32).

O “Vem” do Apocalipse é o grito do Espírito Santo e da Igreja que aguarda seu Esposo. E Maria? Maria é justamente aquela que é figura da Igreja, pois desfruta de todas as qualidades elencadas por Paulo: gloriosa, sem mancha (imaculada), santa e irrepreensível. É por isso que a Igreja olha para Maria como modelo de Esposa. Maria viveu não só a dimensão do amor maternal, mas também a dimensão do amor virginal. Veja o que diz a Carta Encíclica Redemptoris Mater de João Paulo II:

Maria une em si, de maneira perfeita, o amor próprio da virgindade e o amor característico da maternidade, conjuntos e como que fundidos num só amor. Por isso, Maria tornou-se não só a

Em outras duas citações, o documento vai falar do “amor esponsal” de Maria. É o amor “que consagra totalmente a Deus uma pessoa humana” (Rm 39). É o amor da esposa, é o amor que a Igreja deve ter a seu Esposo, pois, assim como Maria, a Igreja é chamada a viver o amor esponsal. Jesus não era apenas seu filho – como se isso já não fosse, por si, algo grandioso – mas ele também era seu Senhor. Esse foi o itinerário de fé que Maria trilhou, da Anunciação até a Cruz.

Um grande teólogo do século XX, Hans Urs Von Balthasar, afirma que a união nupcial entre Cristo e a Igreja se realiza na cruz, onde a Igreja está representada por Maria (1). Então, se o casamento da Igreja com Cristo se realiza na cruz, na teologia joanina de Caná, essa mesma Igreja, prefigurada em Maria, é a noiva. Nessa ótica, a voz aflita dizendo ” Eles não tem mais vinho” (Jo 2,3), não era apenas a fala de uma mãe, mas da noiva para seu noivo. E o noivo não decepcionou. E a festa não acabou. E Caná perdurou até a consumação no Calvário.

A contemplação da noiva de Caná nos permite mergulhar nesse mistério maior que é nossa relação pessoal e eclesial com o Noivo, com aquele que vai chegar, como na parábola das dez virgens: “O noivo vem aí! Saí ao seu encontro! (Mt 25,6). Que belo ver que a Virgem Aparecida responde em nome da Igreja e em nosso nome: Vem! Vem Senhor Jesus!

Aprendamos, na escola de Caná, a amarmos Jesus de todo nosso coração, e que esse amor se traduza na prudente vigilância do serviço ao próximo e que nunca falte em nossas lâmpadas o azeite do Santo Espírito.

Vinícius Paiva é teólogo, mariólogo, associado da Academia Marial de Aparecida e coordenador da rede digital Escola Maria de Caná

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BALTHASAR, Hans Urs Von apud
HACKMANN, G. A imagem da esposa de Cristo na eclesiologia de Balthasar. In: Horizonte, Vol 13, No 37, p. 446-477. Belo Horizonte: PUC Minas, 2015.

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