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Quaresma: Fazei tudo o que Ele (Cristo) vos disser

Maria ensina-nos a tomar consciência de que a única realidade verdadeiramente trágica é essa, a da desobediência a Deus, a da recusa do Seu amor.
Imagem shutterstock do artigo 5 formas de discernir a vocação na Quaresma

A Virgem Maria na Quaresma

No plano salvífico de Deus (Lc 2,34-35), estão associados Cristo crucificado e a Virgem dolorosa. Como Cristo é o “homem de dores” (Is 53,3), por meio dele agradou-se Deus em “reconciliar consigo todos os seres: os do céu e os da terra, fazendo a paz pelo sangue de sua cruz” (Col 1,20).

Assim, Maria é a “mulher da dor”, que Deus quis associar a seu Filho como mãe e partícipe de sua Paixão. Desde os dias da infância de Cristo, toda a vida da Virgem — participando do rechaço de que era objeto seu Filho — transcorreu sob o sinal da espada (Lc 2,35).

Por isso, a Quaresma é também um tempo oportuno para crescer em nosso amor filial Àquela que, ao pé da Cruz, entregou seu Filho e entregou-se a si mesma com Ele por nossa salvação. Podemos expressar este amor filial durante a Quaresma impulsionando certas devoções marianas próprias deste tempo: “As sete dores de Santa Maria Virgem”; a devoção a “Nossa Senhora, a Virgem das Dores” (cuja memória litúrgica pode ser celebrada na sexta-feira da V semana da Quaresma); e a reza do Santo Rosário, especialmente os mistérios dolorosos.

Também podemos impulsionar o culto à Virgem Maria através de Missas da Bem-aventurada Virgem Maria, cujos formulários de Quaresma podem ser usados aos sábados.

Vivendo a Quaresma

Durante esse tempo especial de purificação e santificação, contamos com diversos meios propostos pela Igreja que nos ajudam a viver a dinâmica quaresmal.

Antes de tudo, a vida de oração é condição indispensável para o encontro com Deus. Na oração, quando o cristão inicia um diálogo íntimo com o Senhor, a graça divina penetra em seu coração e, à semelhança da Virgem Maria, este se abre à ação do Espírito, cooperando com ela por meio de sua resposta livre e generosa (Lc 1,38).

Devemos também intensificar a escuta e a meditação atenta da Palavra de Deus, a assistência frequente ao sacramento da Reconciliação e à Eucaristia, e a própria prática do jejum, segundo as possibilidades de cada um.

Assim nos recorda São Leão Magno:

“Estes dias de Quaresma nos convidam de maneira imperiosa ao exercício da caridade; se desejamos chegar à Páscoa santificados em nosso ser, devemos por um interesse especialíssimo na aquisição desta virtude, que contém em si as demais e cobre uma multidão de pecados”.

Esta vivência da caridade deve ser praticada de maneira especial com aqueles que temos mais próximos, no ambiente concreto em que nos movemos. Assim, vamos construindo no outro “o bem mais precioso e efetivo, que é o da coerência com a própria vocação cristã” (João Paulo II).

Com Maria, viver a Quaresma

A Quaresma é tudo isto: tempo de revisão de vida, de ascese purificadora e de especial atenção à Palavra de Deus; e, por via de consequência, é também tempo de solidariedade, isto é, o amor de Deus traduzido em obras.

Para participarem mais frutuosamente do mistério da Páscoa — Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo — a Igreja, todos os anos, faz a seus filhos a proposta de se exercitarem naqueles diversos aspectos ao longo dos 40 dias que antecedem a festa principal do ano litúrgico.

Ao secundar esta proposta maternal da Igreja, deparamo-nos com as palavras, atitudes e recomendações da Virgem Maria consagradas no Evangelho ou ocorridas em aparições já reconhecidas pela autoridade eclesiástica.

Não ajudará, porventura, a utilizar o tempo da Quaresma para fazer uma revisão de vida a presença d’Aquela que continua a recomendar, com suma discrição e insistência, como em Caná: «Fazei tudo o que Ele (Cristo) vos disser»?

O exemplo de Maria, que viveu pobre, conheceu as agruras de viver fora de sua terra e também se submeteu, sem «precisar», ao rito da purificação pelo nascimento de seu Filho, não será proveitoso para nos encorajar a fazer da Quaresma um tempo de penitência e ascese purificadora? Quem poderá melhor transmitir o gosto de privar com a Palavra de Deus, de saboreá-la e encarná-la na vida, senão a Virgem Maria, a Mãe da Palavra feita Pessoa, que a acolheu em seu seio porque já antes a acolhera em seu espírito?

E não será um estímulo grande para fazer da Quaresma um tempo de partilha e solidariedade o exemplo de Maria Santíssima, pronta a pôr-se a caminho da casa de Isabel para lhe oferecer seus préstimos?

Como se não bastasse isto para fazer de Maria uma companhia preciosa para viver uma Quaresma de verdade, temos ainda as suas advertências feitas em várias manifestações sobrenaturais. Lembremos tão somente as de Fátima. Na última aparição, exprimia-se assim a Senhora do Rosário: «Quero que continuem sempre a rezar o terço todos os dias… é preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados… Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido».

Salta aos olhos a consonância entre o teor da mensagem de Nossa Senhora em Fátima e a mística do tempo de preparação da Páscoa: aquela insiste, precisamente, nos valores que a Igreja propõe para se fazer uma santa Quaresma, como sejam a penitência (conversão) e a oração (o homem a falar a Deus e Deus a falar ao homem).

Maria ensina-nos a tomar consciência

No fim de contas, a Quaresma existe porque existe o pecado. Maria ensina-nos a tomar consciência de que a única realidade verdadeiramente trágica é a da desobediência a Deus e a da recusa de seu amor.

Pecado individual e coletivo. Pecado que introduz desarmonia no plano de Deus e que exige reparação individual e coletiva. Pecado que leva à perdição eterna, mas que pode ser superado pela penitência e pela conversão.

Vivendo a Quaresma com Maria, na escola de seu Coração Materno, vivê-la-emos em profundidade: uma Quaresma de interioridade, mas também de partilha fraterna, onde cabe o apelo do Papa João Paulo II:

Deixai-vos impregnar do espírito de penitência e de conversão que é, aliás, o espírito de amor e de partilha; à imitação de Cristo, tornai-vos próximos dos despojados e dos feridos, daqueles que o mundo ignora ou rejeita.

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