Enquanto seis das nove fronteiras planetárias já foram rompidas, dados mostram que a erradicação da pobreza impactaria menos de 1% dos recursos globais.
Inequivocamente, a crise ambiental é uma característica e uma consequência lógica de um modelo de crescimento econômico que ignora por completo a integração do elemento ecológico na sua racionalidade.
Não muito diferente disso, a crise social – evidenciada nas mais de 730 milhões de pessoas que ainda enfrentam a fome diariamente e no contingente que sobrevive abaixo da linha de pobreza de US$ 2,15/dia (parâmetro atualizado do Banco Mundial) – é fruto de descaso dos formuladores de políticas públicas.
Entender essas crises e, mais que isso, mensurar seus impactos à humanidade são de extrema importância para superá-las. Especificamente em relação à crise ambiental, coube a nomes como Johan Rockström e equipes globais de cientistas (dando continuidade ao trabalho seminal de Jonathan Foley) coordenar estudos para mensurar os processos ambientais ( fronteiras planetárias) que já se encontram ameaçados, tornando o planeta incapaz de sustentar a vida como a conhecemos.
Dos nove processos estudados, a ciência alerta hoje que já ultrapassamos seis das nove fronteiras, cujo limite ambiental seguro já foi cruzado:
- a mudança climática;
- a integridade da biosfera (perda de biodiversidade);
- as mudanças no sistema terrestre;
- a poluição por nitrogênio e fósforo;
- a escassez de água doce e
- a introdução de novas entidades (como plásticos e poluentes químicos).
O desafio que se coloca à humanidade, diante desses fatos, é único: promover a erradicação da pobreza e alcançar a sustentabilidade ambiental, evitando a ultrapassagem das fronteiras planetárias e sociais, trazendo a humanidade para a convivência num espaço seguro e equilibrado.
No entanto, diante desse quadro, uma pergunta se apresenta bem oportuna:
Eliminar a pobreza absoluta, diminuindo ou eliminando a desigualdade social, implica em aumento de pressão sobre as fronteiras planetárias?
Estudos atualizados da conceituada Oxfam Internacional respondem a essa pergunta ponderando que não há pressão significativa sobre a questão ambiental vinda dos mais vulneráveis, uma vez que o “alívio” aos problemas sociais mencionados pode ser alcançado a partir do uso de poucos recursos adicionais.
Para melhor ilustrar esse fato, cabe observar os dados de escala em relação a essa questão:
- Alimentos: Fornecer as calorias adicionais necessárias à população que enfrenta a fome exigiria apenas cerca de 1% do atual abastecimento global de alimentos.
- Energia: Levar eletricidade básica aos que ainda não têm acesso poderia ser alcançado com um aumento inferior a 1% nas emissões globais de CO2.
- Renda: Acabar com a pobreza extrema de renda exigiria apenas 0,2% da renda global.
Diante disso, outra conclusão do referenciado estudo chama a atenção: a verdadeira pressão sobre as fronteiras planetárias reside pelo lado do consumo excessivo de recursos praticados por aproximadamente 10% da população mundial mais rica, amparados nos modelos de produção voltados para essa faixa populacional.
Em relação a isso, olhando para os dados de desigualdade de carbono e renda, tem-se que:
- Cerca de 50% das emissões globais de carbono são geradas por apenas 10% das pessoas (sendo que o 1% mais rico emite mais do que os 66% mais pobres). Mais da metade da renda global encontra-se nas mãos de uma pequena elite econômica.
- O consumo de recursos renováveis da Terra ocorre em uma velocidade superior à capacidade de regeneração, como se tivéssemos à nossa disposição quase dois planetas para abusarmos e nos satisfazermos.
Resultado: a pressão criada sobre as fronteiras planetárias reside, globalmente, nas ações dos consumidores mais ricos do mundo e na ineficiência de um modelo que privilegia o acúmulo em detrimento da regeneração. Isso tem feito a humanidade viver além dos limites biofísicos da Terra.
Texto original de Marcus Eduardo de Oliveira, economista especializado em Política Internacional, com dados e indicadores atualizados para o contexto de 2026.