No quarto Evangelho João retrata Maria aos pés da cruz, e diante de tanto sofrimento a Mãe de Jesus deixa transparecer, como em nenhuma outra ocasião, sua condição de mulher que ouve e conserva na alma as palavras de Deus
Por Sônia Regina Lemos de Almeida
Os acontecimentos que faziam parte da rotina da mãe de Jesus lhe traziam a lembrança das palavras do profeta Simeão, pois sentia que seu coração era transpassado por uma espada. Todavia, Maria manteve-se confiante e mesmo em contato com o incompreensível abandonou-se de maneira incondicional à vontade do Pai, e quando tudo parecia absurdo ela respondia seu amém ao próprio absurdo, e esse desaparecia. Ao silêncio de Deus respondia com o faça-se, e o silêncio se transformava em presença.
O amor ilimitado que sente pelo Filho fez de Maria uma verdadeira mártir. Nenhuma outra criatura amou como ela e esse amor incomensurável na encarnação tornou-se, posteriormente, causa de seu martírio. Assim, quando Jesus era espancado e torturado, Maria sentia em seu corpo o mesmo flagelo. O seu sofrimento equiparou-se ao de seu Filho e o seu coração tão compassivo sentiu as torturas físicas e morais a Ele infligidas a ponto de a Mãe sentir como uma espada de dor a penetrar suas entranhas.
Na Cruz, Cristo e todos os que dividiam com Ele aquele momento doloroso puderam transmitir à Igreja nascente e à humanidade o Evangelho do sofrimento assumido por amor. Contudo, a Virgem Imaculada dividia com Jesus o flagelo que lhe era imposto, suportando e compartilhando de forma singular a missão de seu Filho amado. De pé diante da Cruz a Mãe foi testemunha da Paixão e dela participou com sua compaixão, completando em sua própria carne e em seu amargurado coração o que faltava aos sofrimentos de Cristo. Unindo-se ao propósito redentor de Jesus, Maria partilhava com seu Filho o desejo de salvação de toda a humanidade e para tanto se sentia preparada para realizar qualquer sacrifício, inclusive oferecer de forma generosa sua dor com essa intenção.
Senhora das Dores, soube ser Senhora de sua existência no amor oblativo, aceitando a condição de ser para Deus, com o outro e pelo outro.