Os mandamentos são o caminho pelo qual realizamos o êxodo em nossa própria existência
Por Felipe Koller
A disposição para escutar é um dos componentes fundamentais de uma verdadeira relação, de um relacionamento saudável, bonito, cheio de vida. Escutar é levar em conta o outro; é renunciar a impor sobre o outro os nossos julgamentos e abrir-se a acolhê-lo a partir do interior do seu próprio caminho. É reconhecer-se dentro de um âmbito de confiança, liberdade e cuidado.
Deus escutou o grito do seu povo (cf. Êx 3,7). Não foi indiferente à sua dor e fez de tudo para conduzi-lo à libertação. Tornou a história desse povo um diálogo com Ele. E agora Israel vai aprendendo a tomar parte nesse diálogo, a elevar uma resposta de gratidão — não com algum gesto religioso, mas acolhendo a mesma dinâmica da vida de Deus e aprendendo, assim, a levar em conta o outro. É o caminho que o decálogo — a vontade de Deus expressa nas tábuas de pedra que Moisés recebe no Sinai — nos propõe.
Trata-se de fazer da própria vida um “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, como descreverá Paulo: “Não se amoldem às estruturas deste mundo, mas transformem-se pela renovação da mente, a fim de distinguir qual é a vontade de Deus” (Rm 12,1-2). Trata-se de abrir-se à sua vontade — “vida em abundância” (Jo 10,10) — e viver o Reino de Deus, que é “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17).
Essa é a terra prometida, em que a vontade de Deus é vivida na terra como no céu (cf. Mt 6,10). Os mandamentos são o caminho pelo qual o êxodo se realiza em nossa própria existência, ao deixarmos para trás a escravidão de um eu voltado para si mesmo e entrarmos na terra santa de uma vida fraterna. Mas não nos enganemos: o seu cumprimento não é obra dos nossos esforços, mas obra de Deus em nós, quando nos abrimos à sua ação — é sempre Ele quem nos faz “ sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Êx 20,2).