A história da devoção a Nossa Senhora da Paz em El Salvador teve início no ano de 1682, na praia da Vila do Mar do Sul, banhada pelo Oceano Pacífico. Passavam por ali alguns comerciantes quando avistaram uma grande caixa de madeira, pesada e hermeticamente fechada, jogada na areia. Tentaram abri-la, sem êxito. Avaliando que seria difícil transportá-la por veredas perigosas e que comunicar o achado às autoridades exigiria um esforço em benefício alheio, decidiram priorizar os próprios interesses e deixaram a caixa para trás, perdendo uma oportunidade preciosa.
Pouco depois, passou pelo local um segundo grupo de comerciantes. Ao encontrarem a mesma caixa e constatarem que nada indicava a sua procedência, concluíram que devia conter algo valioso pertencente a alguma vítima de naufrágio ou a algum comerciante perseguido por piratas ingleses. Pensando no bem do próximo, conseguiram um burro emprestado, acomodaram o volume e seguiram em direção à cidade de San Miguel, onde chegaram no dia 21 de novembro.
Ao chegarem diante da igreja local, o animal deitou-se no chão. Quando os mercadores movimentaram a caixa, constataram com surpresa que ela se abria agora sem qualquer dificuldade, revelando em seu interior uma bela imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus. As autoridades civis e religiosas procuraram os possíveis proprietários, mas nunca se soube a origem do barco ou se a caixa fora lançada ao mar para evitar a profanação por piratas. Diante do fato de a caixa só ter se aberto diante do templo, a imagem foi acolhida na igreja de San Miguel, onde permanece até hoje.
O Milagre do Vulcão Chaparrastique (1787)
Um século mais tarde, no dia 21 de setembro de 1787, os habitantes de San Miguel assistiram consternados à violenta erupção do vulcão Chaparrastique. A montanha, com mais de mil metros de altitude e situada a cerca de 50 quilômetros da cidade, ameaçava a população não apenas pelos gases e pedras, mas sobretudo pela lava que avançava sem obstáculos naturais, destruindo tudo pelo caminho.
Diante da tragédia iminente, o clero e os fiéis decidiram retirar a imagem do interior da igreja e colocá-la na porta do templo, implorando pela sua proteção. No exato momento em que o fizeram, o fluxo de lava mudou de rumo e, embora tenha atingido terras férteis, a cidade foi milagrosamente salva. Durante o acontecimento, as nuvens sobre o vulcão formaram o desenho de uma folha de palmeira. Em sinal de gratidão por esse livramento, os fiéis mandaram confeccionar uma palma de ouro, que foi colocada na mão da Virgem Santíssima.
O Título de Nossa Senhora da Paz (1833)
A atribuição do nome “Nossa Senhora da Paz” à imagem ocorreu anos mais tarde, no contexto das lutas civis travadas entre conservadores e liberais após a independência dos países hispano-americanos. Em 1833, durante um intenso conflito em que um dos partidos tomou o controle de San Miguel, a população temia um massacre e uma sangrenta revanche contra os derrotados.
Entretanto, os líderes vitoriosos, buscando evitar o derramamento de sangue entre irmãos, mandaram colocar a imagem da Virgem no centro da igreja. Diante dela, assumiram o compromisso solene de renunciar a todo propósito de vingança e buscar a reconciliação nacional. A partir desse gesto de pacificação, a imagem passou a ser venerada sob o título de Nossa Senhora da Paz, consagrando-se como a grande padroeira de El Salvador.