A tradição que dá origem ao título de Nossa Senhora da Claridade remonta a um dramático episódio de navegação ocorrido sob uma noite de densa escuridão e mar revolto. Um grupo de marinheiros viu-se surpreendido por uma violenta tempestade que desgovernou a embarcação e tornou inútil qualquer manobra humana. Diante das ondas furiosas e da iminência do naufrágio nas proximidades de uma costa rochosa e traiçoeira, os tripulantes, esgotadas todas as forças físicas e recursos de salvamento, reconheceram a sua completa impotência perante a fúria dos elementos.
Sem qualquer visibilidade para alcançar um porto seguro e sabendo-se à beira do abismo, os navegantes voltaram-se com fervor à Virgem Maria, clamando por sua proteção maternal e prometendo erguer um templo em sua honra caso fossem salvos da morte. Em resposta àquela súplica aflita, um facho de luz misterioso e de extraordinária intensidade rompeu subitamente as trevas da noite. O clarão sobre-humano não apenas iluminou a entrada do porto com perfeita nitidez, mas guiou a embarcação com segurança entre os rochedos, conduzindo os homens milagrosamente salvos à terra firme.
Fiéis à promessa feita no momento de maior desespero, os marinheiros providenciaram a construção de uma capela à beira-mar, erguida como ex-voto e testemunho perpétuo do socorro divino. O templo, hoje chamado de Santuário de Nossa Senhora da Claridade (Chapelle Notre-Dame de la Clarté), situa-se na comuna de Perros-Guirec, na região da Bretanha, no noroeste da França.
Foi consagrado sob a invocação de Nossa Senhora da Claridade, em referência direta ao sinal luminoso que os resgatara das trevas e do naufrágio. A partir do cumprimento desse voto, o pequeno santuário tornou-se um ponto de referência para a comunidade local e para os homens do mar, que ali buscavam bênção antes de enfrentarem as incertezas das navegações.
À medida que a fama do milagre original se espalhava pelas populações ribeirinhas e vilas vizinhas, o fluxo de fiéis à capela cresceu exponencialmente. Os peregrinos passaram a associar a luz física que guiou os marinheiros à iluminação das trevas corporais e espirituais.
Com o tempo, consolidou-se a tradição de recorrer à Senhora da Claridade para a cura das doenças dos olhos e aflições da visão, registrando-se múltiplos relatos de graças e restabelecimentos atribuídos à sua intercessão amorosa. Com o passar dos séculos, a devoção ganhou contornos litúrgicos e comunitários ainda mais fortes, fixando a sua principal festividade no dia 15 de agosto, data em que a Igreja celebra a Solenidade da Assunção da Virgem Maria ao Céu.
Nessa data festiva, o santuário torna-se o destino de fervorosas peregrinações, em que multidões de devotos se reúnem em procissão e oração para render graças pelo amparo nas tempestades da vida e renovar a fé naquela que é guia segura e luz dos cristãos.