Felipe Simas¹
A litania mariana mais antiga que conhecemos data do Século XII e traz a invocação de 73 títulos marianos. Entretanto, é no Século XVI que as litanias marianas se tornaram populares e uma das formas de sua cristalização foram as Litanias Lauretanas, assim conhecidas por serem cantadas frequentemente no Santuário da Santa Casa de Loreto.
As Litanias Lauretanas são a primeira fonte em que encontramos uma denominação análoga ao título de Maria como Rainha das Missões: o título de Rainha dos Apóstolos.
Para compreender essa ligação, devemos ir ao étimo grego da palavra “apóstolo”, que significa “aquele enviado em missão”. É necessário notar também, o local e a ordem em que o título aparece nas litanias:
V. Rainha dos Patriarcas
R. Rogai por nós
V. Rainha dos Profetas
R. Rogai por nós
V. Rainha dos Apóstolos
R. Rogai por nós
V. Rainha dos Mártires
R. Rogai por nós
A Rainha dos Apóstolos é invocada em meio a uma hierarquia que vai dos Patriarcas aos Mártires. Desse modo, por mais que, em sentido estrito, elas digam respeito aos Doze Apóstolos, em um sentido mais amplo, tomando como base a missão evangelizadora dos mesmos, percebemos que já nesse título está contida sua futura denominação missionária.
Essa relação aparece muito claramente no século XX, em documentos papais sobre missões, como Maximum Illud (1919), de Bento XV, Rerum Ecclesiae (1926), de Pio XI, e Fidei Donum (1957), de Pio XII. Ao final de todos eles, o título de Rainha dos Apóstolos é invocado na benção aos missionários.
Dois anos após o documento de Pio XII, João XXIII publica a encíclica Princeps Pastorum, onde encontramos o título de Rainha das Missões. Desde então, a maioria dos papas utilizou o título de Rainha das Missões. Recentemente, o Papa Francisco em sua mensagem ao Dia Mundial das Missões de 2022, bem como em outros pronunciamentos, também utilizou essa invocação mariana.
Nos parece que a popularização do termo Rainha das Missões ocorreu devido à sua utilização pelos Missionários Vicentinos, já no início do século XX. Essa denominação está relacionada às aparições de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa a Santa Catarina Labouré.
Antes da Virgem manifestar-se em sua imagem mais conhecida relacionada à Medalha, na qual surge de braços abertos enviando suas graças à terra – daí o título de Nossa Senhora das Graças –, ela aparece à irmã vicentina sustentando em suas mãos “um globo de ouro com uma pequena cruz em cima, que representava o mundo”.
Essa imagem, que ficou associada a títulos como a Virgem do Globo, Rainha do Universo, Rainha do Mundo, entre outros, foi formalizada, em meados do século XX, pela Sagrada Congregação da Propagação da Fé, sob o título de Maria Rainha das Missões.
Não existe no calendário litúrgico uma data específica instituída em honra de Maria Rainha das Missões. Todavia, a Virgem Missionária é associada, em diversos lugares do mundo, à festa da Visitação, comemorada em 31 de maio.
Essa relação existe devido à interpretação de que a primeira peregrinação missionária ocorre quando a Virgem sai de Nazaré para encontrar sua prima Isabel, levando Jesus Cristo em seu ventre para dá-lo a conhecer a sua prima.
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¹ Felipe Simas é Mestre e Doutor em Letras pela PUC-Rio, possui pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Católica de Petrópolis e é Coordenador do Centro de Estudos Católicos (CEC).